Saúde do músico: alongamentos

EDIÇÃO (14/04/2013) – gostaria de incluir e recomendar fortemente a seguinte reportagem do jornal O Globo:

O alongamento é prejudicial ou não ao desempenho?

(sempre com a ressalva de que os estudos citados na reportagem são voltados para esportes e não para música)

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Na nutrição, alguns alimentos são alternadamente endeusados e contestados pelos especialistas. Num mês são a salvação da sua saúde, no mês seguinte são o caminho mais curto para um câncer! É o caso do ovo, do tomate, do café e etc…a lista não tem fim.

Nós músicos temos um eterno dilema nos mesmos moldes: o alongamento!
Conforme o tema “saúde do músico” ganha espaço, o assunto “alongamento” vai ficando mais e mais confuso.

Se você é músico e nunca pensou sobre o assunto, espero que este texto te estimule a pesquisar mais. De cara deixo claro que minha intenção não é dar a resposta “certa”, estabelecer uma regra ou coisa do tipo. Pretendo apenas relatar muito do que já ouvi sobre o assunto, descrever a MINHA rotina/experiência e, quem sabe, contribuir para que cada leitor busque a rotina que mais se adequa a suas características.

Os termos técnicos vão passar longe desse texto, então já peço desculpas aos fisioterapeutas que, porventura, venham a visitar o blog. Mas sintam-se à vontade para contribuir!

Vamos discutir o assunto em forma de perguntas/respostas, abordando as principais dúvidas. Seja você iniciante ou músico profissional, esse assunto é crucial!

– Que especialista estuda este assunto?
Esse é nosso primeiro problema. Os especialistas que se debruçam a pesquisar sobre os efeitos do alongamento no desempenho físico em geral estão voltados à prática de esporte (especialmente os de alto rendimento) ou a terapia ocupacional. Ao redor do mundo contam-se nos dedos os estudiosos que abordam especificamente a prática dos músicos.
Não é preciso pesquisar muito para notar que as necessidades de um corredor de maratona profissional são diferentes de um flautista de orquestra.
Por isso, muito cuidado ao adotar recomendações de fisioterapeutas, pois elas podem estar dirigidas a uma prática bem diversa da sua, músico!
Ao se consultar com algum médico, deixe claro que você é músico, qual sua rotina de estudos/concertos, mostre como é a postura que você usa para tocar e, se possível, leve seu instrumento ao consultório para uma demonstração prática.
Lembre-se que, para que os médicos chegassem a conclusões a respeito dos esportistas, foram necessárias décadas de estudo, inclusive estudo de campo. Não se contente em dizer “ah, eu toco violino!”. MOSTRE!

– Há consenso entre os especialistas?
Outra pergunta importante. Não, não há consenso! Uma rápida pesquisa à lá Google coloca a três linhas de distância artigos sérios praticamente antagônicos. Isso quando estamos falando das áreas mais estudadas da fisioterapia (esportes, etc.). Imagine agora quando partimos para o nebuloso mundo dos instrumentistas! Por isso, nunca encare um artigo como verdade absoluta.
Tenho amigos que mantiveram uma certa rotina de alongamentos durante anos, e sempre sentiram-se bem com ela. Após alguma “dica” milagrosa que leram em algum lugar, mudaram radicalmente seus hábitos. Que esse tipo de mudança brusca e mal orientada faz mal, é um dos poucos consensos entre os médicos.

– Quais as principais indicações dadas aos músicos?
Existem diversas séries de alongamentos específicos a cada grupo muscular, e que se aplicariam melhor a cada músico.  Um violOnista, que pratica o tempo todo sentado, exige muito mais de sua musculatura lombar do que um violInista, que pode alternar entre estudar sentado e de pé.
Porém, o objetivo deste post não é ser específico nem substituir uma orientação especializada, mas sim abordar genericamente o assunto. Então, vamos às duas recomendações genéricas mais comentadas:

  • alongar antes do estudo: essa recomendação parte do princípio de que, antes de tocar, estamos com os músculos “despreparados” para a prática, e que o alongamento serviria para essa preparação. (lembre-se de que não domino os termos técnicos)
    Alguns colegas adeptos dessa rotina descrevem a sensação de tocar sem alongamento como tendo as mãos “amarradas”, e que o alongamento “solta” os músculos.
    Particularmente, acho algo agressivo ao corpo realizar alongamentos ANTES da prática. De qualquer forma, se você pratica isso, NUNCA SE ESQUEÇA DE AQUECER o grupo muscular ANTES de alongar.
    Partir do repouso e ir direto ao alongamento é uma das melhores técnicas para se obter uma LESÃO, especialmente no frio.
    Para se aquecer você pode fazer até mesmo uma leve caminhada de uns 5 minutos, para que o sangue circule em maior abundância pelo seu corpo (inclusive músculos), e aí então você estará preparado para se alongar.
    O fato de alguns recomendarem o alongamento ANTES da prática, não quer dizer que eles não recomendem alogamentos APÓS a prática. As variações de recomendações, como já disse, são inúmeras.
  • alongar depois do estudo: é a rotina que aderi! Nunca me alongo antes de tocar. O que faço agora é iniciar com exercícios simples, ou até mesmo uma pequena improvisação no instrumento, visando “soltar” os músculos enquanto me aqueço naturalmente. Nunca realizo passagens com aberturas grandes para os dedos ou de explosões bruscas de velocidade. Tudo muito gradual, durante uns 5 minutos.
    Depois desse pequeno aquecimento, me sinto confortável e aquecido o suficiente para realizar as passagens mais exigentes tecnicamente.
    Por fim, após uma sessão de estudos (a divisão de estudos em pequenas sessões é crucial para sua saúde! Abordarei o tema em outro post), aí sim eu realizo um leve alongamento, com o intuito de relaxar a musculatura usada na prática de estudo. Faço tudo muito lentamente e sem esforço, pois a intenção agora é “desaquecer” o corpo.

Essas duas práticas, apesar de antagônicas, possuem suas recomendações em comum:

  • nunca inicie seus estudos com as passagens mais complexas mecanicamente
  • nunca estude por longos períodos sem pausa
  • nunca pratique trechos que exijam a mesma musculatura por longos períodos (trechos com ligados, ou com aberturas, trechos com escalas, com saltos, etc.). Sempre varie, dentro de cada sessão de estudo, trechos com exigências mecânicas diferentes, para não se desgastar.

Novamente, reforço que não quero determinar nem ao menos sugerir a ninguém que siga o que eu pratico. Minha intenção é apenas levar à reflexão. Eu passei anos fazendo alongamentos pesados ANTES de estudar, mas mudei radicalmente.
O que me fez mudar foi o fato de eu ter começado a praticar jogging. Nunca me senti confortável me alongando antes das corridas. Com o tempo resolvi experimentar a sugestão do instrutor de minha academia, de começar com uma leve caminhada de 5 minutos (para aquecimento), depois correr e, por fim, me alongar para “desaquecer” o corpo.
Isso me fez sentir bem mais confortável, e logo pensei em experimentar essa prática na minha rotina de estudos (lembram-se da história das “pesquisas serem voltadas ao esporte, e não à música?”).

Apesar dos anos e anos em que os músicos viveram na idade das trevas a respeito dos cuidados com sua saúde, isso está mudando. Quando eu disse que se contam nos dedos os especialistas voltados para o estudo da saúde do músico, não estou exagerando. Mas, afinal, se eles contam-se nos dedos, ao menos eles existem!
Além disso, não são poucos os músicos que, sentindo essa necessidade de informação, acabam se debruçando sobre livros de anatomia para entender melhor o funcionamento de seu corpo durante o estudo. O triste é saber de casos em que isso só aconteceu APÓS o músico sofrer uma lesão.
O caso no Brasil mais notório é o do oboísta Alex Klein, um dos maiores no instrumento em todo o mundo. Alex teve de interromper sua carreira de instrumentista por conta de uma distonia focal, que é na realidade um problema neurológico e não muscular. O fato é que, por sentir que não havia informação suficiente a respeito do problema, Alex teve de pesquisar por conta própria.
Atualmente ele segue a carreira de músico, mas como regente (hoje em dia é titular da Sinfônica Municipal de São Paulo). Já o vi em ação como regente, e devo dizer que o mundo da regência teve sorte!

Em breve postarei aos interesados uma lista de artigos, teses e livros que abordam o tema da saúde do músico. Além disso, colocarei o contato de alguns médicos no Brasil que têm tratado os principais músicos acerca de problemas ligados à prática musical.

Se você tem alguma correção, sugestão, crítica ou dica valiosa sobre o tema, por favor poste nos comentários. Insisto que a intenção aqui não é esgotar o assunto, apenas inciar a reflexão de quem está começando agora na música. Não tomem decisões baseando-se no que leram aqui e, SEMPRE, consulte um médico de sua confiança quando se trata de saúde!

Por fim, quero dizer que a minha consciência sobre a importância deste tema se deve, majoritariamente, aos grandes professores de instrumento que tive. Antônio Guedes, Ângela Muner, Paulo Martelli e Fábio Zanon, todos sempre foram muito exigentes quanto à postura ao tocar, relaxamento, rotinas saudáveis de estudo entre outros. Se ainda toco diariamente sem sentir dores e com prazer, isso se deve a eles!
Outro local onde aprendi bastante foi o já citado Fórum de Violão: www.violao.org
Vale a pena fazer uma busca a respeito do tema no acervo do site.


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