Música: Quantas horas por dia devo estudar?

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De início, uma confissão: na semana em que me matriculei num curso de Economia, eu já estava tentando ler teses de Doutorado na área.

Se você pensa que caiu no site errado, acalme-se! A minha confissão acima tem tudo a ver com o título do texto. A pergunta ali se origina na ansiedade para aprender logo um novo assunto e poder “aproveitá-lo” de fato, afinal, ao decidir me inscrever no curso de Economia, obviamente eu estava sendo motivado pelo interesse na “Economia” propriamente dita (entender as reportagens sobre o tema, analisar propostas de políticos para a área, conseguir ler indicadores oficiais como PIB, saldo comercial, etc.), e não nos “cursos de Economia”. Ninguém vai atrás de aulas de violão para curtir aulas de violão em si. O objetivo é sempre tocar violão (ou “falar francês”, “desenhar”, “dançar”). Daí vem a necessidade de saber logo quanto tempo teremos de nos dedicar ao “estudo do violão”, visto como uma barreira inevitável, para chegarmos ao grande objetivo: tocar violão bem. Por isso, antes de falarmos sobre a quantidade de horas necessárias, um breve comentário sobre a forma como enxergamos o estudo.

Estudar é inevitável. Não se avança em música sem prática constante! Logo, se você enxergar o estudo apenas como um mal necessário, saiba que esse tempo de prática será um estorvo do qual seu inconsciente fará de tudo para fugir, ainda que você esteja conscientemente convencido da necessidade de “enfrentá-lo”. É aqui que começa a procrastinação, enrolação, desculpas como “preciso organizar meus lápis de cor antes de praticar” e assim vai…
Por outro lado, se você encarar os momentos de prática como algo prazeroso, é provável que você passe a adiar outras atividades para poder passar mais tempo com o violão. Como resultado, você avançará mais rapidamente.

Para que o estudo seja assim, antes de mais nada ele precisa ser eficaz e construído para ser interessante, e aí o papel do seu professor é importante: ele irá organizar o que você deve estudar para que você se mantenha motivado. Estudar simultaneamente teoria e prática, músicas com exigências diferentes, de estilos e períodos diferentes, técnicas distintas, enfim, tudo isso é importante na hora de motivá-lo a passar mais tempo praticando.
Definir metas de curto e médio prazo também é algo que pode tirar você da procrastinação, já que a sensação de progresso fica mais concreta (não há nada mais legal do que ver uma tabela de estudos com todas as tarefas “marcadas” como cumpridas).

Aqui está escrevendo alguém que sofreu muito com a procrastinação ao longo da vida, então, acreditem, existe solução para ela!

“Ok, mas QUANTO TEMPO POR DIA DEVO ESTUDAR, André?!”

Voltando ao tema, são inevitáveis as perguntas a seguir, logo nas primeiras aulas: “Quantas horas devo estudar de violão por dia para aprender a tocar bem?”, “Quanto tempo devo me dedicar ao violão para conseguir tocar as primeiras músicas?”, e outras variações desses questionamentos.

O tempo de prática no começo do aprendizado não deve ser muito longo, por duas razões básicas:

Capacidade de assimilação do iniciante: no início, o aluno não deve ser sobrecarregado com exercícios e músicas para praticar (isso cabe ao professor dosar), pois o cérebro simplesmente não assimila muita informação de uma área nova. Logo, se não há muito material para praticar, não há necessidade de horas e horas diárias de estudo para dar conta.
Se você está começando a aprender, digamos, alemão, ler dois parágrafos de um texto simples pode ser uma tarefa tão complexa, cheia de tópicos que exigem sua concentração profunda, que o desgaste mental irá impedi-lo de prosseguir lendo por mais que 30 min (lembre-se de quando você tinha que ir ao dicionário consultar diversas palavras que, com o tempo, acabam se tornando automáticas para você). Contudo, se você já é um estudante avançado da mesma língua, é possível ler um livro em uma semana, já que passar 1h ou 2h lendo não exigirá tanto do cérebro.
Com a música não é diferente! Às vezes, uma peça curta e de fácil execução pode demandar dias para ser aprendida direto da partitura, caso o estudante esteja aprendendo a ler essa forma de notação, pois cada movimento “consumado” ao violão irá demandar uma série de identificações e análises de símbolos e indicações no papel – estudar nesse ritmo é cansativo, e em 20 min é provável que você não tenha mais energia e foco para prosseguir.

Prevenção de lesões e desgase físico: o aluno iniciante precisa acostumar aos poucos sua musculatura para a prática do instrumento. Não é saudável, nas primeiras semanas, passar horas e horas numa postura a que você não está acostumado, ainda mais realizando uma atividade nova e exigente como tocar um instrumento. Em alguns casos, é possível até desenvolver uma lesão séria se houver exagero – não brinque com sua saúde!

Recomendações práticas

Por isso, o que eu recomendo no início é que o aluno dedique-se por volta de 30 a 40 minutos diários ao instrumento, no máximo. Obviamente, exercícios de teoria, solfejo, rítmica e outros do tipo podem e devem ser acrescidos a esses minutos, já que eles não causam lesões! Ainda assim, deve-se observar a primeira limitação comentado anteriormente: não sufocar o aluno iniciante com exercícios. Se a ambição do aluno for comedida, 15 ou 25 minutos podem proporcionar a evolução desejada num ritmo razoável.
Para crianças, o tempo de dedicação é ainda menor, já que estas costumam dispersar e perder o foco com mais facilidade e num tempo mais curto. Como não há sentido na prática que não é feita com atenção, não há necessidade de uma criança passar horas com o instrumento – e, acredite, há pais que obrigam crianças a isso, o que é um enorme equívoco também em outros aspectos!

Caso a empolgação seja grande no aluno, e este queira praticar 1h ou mais por dia, é importante dividir o tempo em mais de uma sessão de estudos. Nem mesmo músicos profissionais deveriam passar mais que 1h praticando sem intervalos, quanto mais alguém que está se adaptando a essa atividade – tanto por questões físicas, quanto por questões mentais (é difícil manter a atenção durante tanto tempo).
Neste caso, se o aluno separar bem as sessões de estudos, ele pode praticar até mesmo 1h30 por dia, em sessões do tipo”30 min. pela manhã, 30 min. de tarde e 30 min. à noite”.

Conforme o aluno for se sentindo mais confortável com o estudo, sem sentir cansaço (físico e mental), o tempo de dedicação diário pode chegar até mesmo a 6h, 8h…tudo depende do objetivo e limite de cada um. Você quer ser um profissional, tocar por diversão, incentivar seus filhos a estudar música? Esse é o fator que vai definir o tempo ideal.

Pessoalmente, meu limite de prática com o violão foi de 6h/dia (em várias sessões bem espaçadas), durante alguns meses, tirando pequenas folgas – dias em que não praticava nada. Mais do que isso eu simplesmente não conseguia fazer, por conta mais do esgotamento mental que do físico. Ao se estudar violão com foco total, o ouvido (e por consequência o cérebro) fica num estado de atenção constante, pois o músico avalia a qualidade sonora, o volume das notas, a precisão rítmica, a intenção das frases, a produção de ruídos indesejáveis…imagine fazer tudo isso durante 6h por dia! É muito desgastante.

Não desperdice seu tempo: passar horas corridas com o violão em punho sem a devida atenção ao que se está estudando é simplesmente auto-engano.Sua capacidade como violonista não funciona na base do taxímetro, aumentando à medida em que você gasta mais tempo tocando. Tocar violão em frente à televisão, ouvindo música (acredite, já ouvi isso!) ou navegando na internet não pode ser considerado tempo de estudo, porque estudar demanda atenção e foco. Mesmo aquelas vezes em que você fica toda hora sendo interrompido para atender telefone, almoçar ou brincar com o cachorro deveriam receber outro nome que não “estudo”, pois o constante “desligar” da atenção prejudica o desenvolvimento de uma atividade que é, antes de tudo, intelectual. É muito mais interessante estudar 20 minutos com foco total do que 2h fingindo que estuda enquanto vê televisão.

Prática constante é melhor que prática intensa

É muito mais eficaz para a evolução como instrumentista a prática rotineira, constante, de preferência diária, do que concentrar o estudo em longas sessões em poucos dias da semana. Isso se deve à forma como nosso cérebro se relaciona com o estudo e aprendizado.

Após aprender algo novo, começa um fenômeno DESESPERADOR, ao qual todos estão acostumados, chamado de esquecimento! Na verdade, somos um pouco ingratos com esse processo, pois é graças a ele que seu cérebro se livra de informações inúteis, como o que você comeu no almoço do dia 05/06/2004. Ou seja, tudo aquilo que seu cérebro não considera importante é descartado aos poucos. Para evitar que aquela música nova entre nessa “lista de dispensa” da memória de curto prazo, é preciso estudar a mesma coisa constantemente, como forma de “provar” ao seu cérebro que aquilo é relevante e deve ser levado para a memória de longo prazo. Você irá notar que no primeiro dia, será necessário um tempo X para assimilar a música. No dia seguinte, você já não lembra bem o que aprendeu, mas com um tempo menor que X você irá chegar ao mesmo patamar em que parou no dia anterior, e ainda irá um pouco mais longe. E assim por diante.
Também por isso é necessário fazer revisões constantes dos aspectos estudados, sempre como estratégia para lidar com esse aliado incompreendido chamado “esquecimento”. Fazendo isso, chegará o momento em que você poderá tocar aquela música apenas uma vez por semana, ou menos, e ainda assim recordá-la.

Por outro lado, se você deixa para estudar em apenas um dia da semana, mesmo que você consiga aprender muito bem algo naquele momento, o fenômeno descrito no parágrafo anterior será fatal, pois o processo de esquecimento irá atuar ao longo de todos os outros dias sem prática, fazendo você perder muito do conhecimento adquirido nessa longa (e improdutiva) sessão de estudo.

Os aspectos motores envolvidos no aprendizado de um instrumento também demandam prática constante, e você já deve ter observado isso ao longo da sua vida: quanto tempo de prática foi necessário para você aprender a escrever? Não me refiro aqui às questões intelectuais envolvidas no processo, e sim ao aspecto motor envolvido. Eu tive de preencher infindáveis páginas de cadernos de caligrafia para adquirir essa habilidade – não dá para esperar que executar bem um instrumento exija menos esforço, certo?

Peça ajuda aos universitários

Como sempre, o acompanhamento de um professor experiente é fundamental para elaborar uma rotina saudável a produtiva de estudo – se a sua não está funcionando, discuta-a com quem o orienta. Estudar da forma correta é o segredo para longos e prazerosos anos de dedicação à música – evite querer correr demais no início do processo, para não comprometer a longevidade da sua vida musical.

Se você tiver dúvidas, precisar de ajuda ou quiser questionar/criticar alguma das ideias apresentadas aqui, o espaço dos comentários é o local!

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