Estrangeirismo na música brasileira

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Existe uma parcela do meio musical brasileiro que rejeita veementemente influências estrangeiras em sua produção. Fortemente apegados às tradições nacionais, esses músicos alegam que isso empobrece nossa cultura e representa uma forma de submissão frente a culturas “imperialistas”, em especial a dos EUA. Porém, analisando a questão com mais cuidado surge uma dúvida: qual é a verdadeira cultura brasileira?

O conceito de “brasileiro original” deveria ser aplicado aos índios que aqui estavam antes de os portugueses chegarem, mas a noção de “nação brasileira” surgiu muito tempo depois. O fato é que, desde a chegada dos portugueses e dos escravos africanos, é impossível delimitar o que é a cultura brasileira original. Nesse sentido, soa contraditório um artista brasileiro queixar-se das influências estrangeiras em nossa música.

Alguns gêneros são sabidamente mais resistentes às influências, como o Choro. O cômico é notar que o Choro é, em sua essência, a mistura de ritmos africanos com a música de salão europeia do século XIX (verdadeiros imperialistas) e que era tocada nos grandes centros urbanos do Brasil, em especial no Rio de Janeiro.

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(Frank Sinatra e Tom Jobim)

Alguns músicos são tidos como defensores da tradição, como o bandolinista Danilo Brito, um dos maiores expoentes do gênero na atualidade. Em 2004, por ocasião da vitória no 7° Prêmio Visa de Música Brasileira, declarou: “Não sou contra quem faz misturas americanizadas, mas prefiro o estilo à moda antiga, tocado por regional, como faziam os mestres Pixinguinha e Jacob do Bandolim. Esse estilo de choro está um pouco estagnado, mas no meio de toda essa renovação, consegui vencer sendo tradicional. Acredito que querendo ou não contribuo para o choro e para a música brasileira”, diz o jovem músico.”

De fato, Danilo é um representante do choro tido como tradicional, mas há algo a ser notado em seu discurso: sua referência ao mestre Jacob ao mesmo tempo em que se considera oposto às misturas americanizadas. Ora, um dos choros mais conhecidos de Jacob é “Assanhado”, em que o genial compositor e bandolinista mescla o fraseado típico do choro com figurações que remetem ao Blues americano, utilizando-se da chamada blue note. O outro mestre da tradição citado, Pixinguinha, revolucionou o choro brasileiro ao adotar o saxofone ao final de sua carreira, instrumento tipicamente ligado ao jazz estadunidense.  O próprio bandolim chegou ao Brasil trazido pelos portugueses!

A intenção desta pequena observação não é desmerecer o trabalho nem as crenças de nenhum artista, até porque Danilo Brito segue sendo um dos maiores na atualidade. Mas este sentimento é presente em diversos músicos brasileiros: desprezam qualquer inovação, mistura e abordagem inovadora apenas por apego ao que consideram “tradicional”, sem ao menos se atentar para a qualidade do resultado e sem notar que mestres tidos como representantes da tradição foram na verdade grandes inovadores e experimentadores, como os exemplos citados de Jacob e Pixinguinha.

Será que se os artistas venerados por estes músicos tivessem tomado a mesma postura o choro sequer existiria? Ou eles esquecem o quanto houve de resistência com relação à música dos negros por parte da elite branca brasileira do fim do século XIX e início do XX? Resultados felizes dessas misturas também podem ser encontrados na música de Tom Jobim, Villa-Lobos, nos Tropicalistas e diversos outros.

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(Jacob do Bandolim)

Se este sentimento fosse exclusivo de artistas saudosistas, o estrago seria nulo. O problema é que esta mentalidade está presente também nos círculos de poder que dirigem nossa política cultural. Basta analisar editais de patrocínio a projetos culturais lançados pelas empresas estatais para encontrar termos como “resgate da cultura típica brasileira”, “valorização do patrimônio cultural brasileiro”, entre outros.

Não haveria cabimento duvidar da importância dessas diretrizes, pois o Brasil, de fato, negligencia sua história (não só a cultural). O problema é que, ao tomar determinadas manifestações artísticas como referenciais, os formuladores de políticas acabam engessando a criação cultural do país, ainda muito dependente de financiamento público. A chance de realizar, através de um desses editais, a gravação de um CD de choro “tradicional” é imensamente maior que um CD de jazz. Ninguém duvida da relevância do choro para o patrimônio histórico do país, mas o Brasil também possui excelentes músicos de jazz. Isso não causa uma distorção no meio cultural?
Afinal, “arte brasileira” é a feita por artistas brasileiros, independente de como estes abordam o processo criativo, ou este termo é exclusividade de alguns segmentos, temas e abordagens específicos, decididos sabe-se lá quando e por quem?

Para ilustrar como este posicionamento não se sustenta, fica o exemplo de trecho da música “Estrangeirismo”, de Zé Ramalho, uma espécie de manifesto contra a influência de palavras inglesas em nosso vocabulário cotidiano. Zé Ramalho beneficia-se de certa “marca” de artista genuinamente brasileiro e defensor de uma determinada tradição da canção nordestina. Mas o próprio Zé Ramalho regravou (aportuguesada, para manter a pose?) a canção “Knockin´on Heaven´s Door”, do cantor Bob Dylan – um dos maiores ícones da cultura dos EUA. Aliás, alguns dizem que o termo Forró é derivado de “For All”, que significa “para todos” em inglês. Faz algum sentido?

Eu gostaria de falar com o presidente prá cuidar melhor da gente que vive neste país.
Nossa gramática está tão dividida, tem gente falando HAPPY, pensando que é feliz.
Acabaria com esse tal estrangeirismo que deturpa nossa língua e muda tudo de uma vez.
E os mendigos que hoje vivem nas calçadas ensinaria aos brasileiros, que aqui se fala o português.
Sou simples sou composto,oculto indeterminado,particípio eu sou gerúndio, sou fonema, sim senhor, Adjetivo,predicado eu sou sujeito, ainda trago no meu peito este Brasil com muito amor.
Lá no centro da cidade quase que morri de fome tanta coisa tanto nome e eu sem saber pronunciar. É FAST FOOD DELIVERY SELF-SERVICE HOT DOG CATCHUP só queria almoçar.
Lá no centro da cidade quase que morri de fome tanta coisa tanto nome
e eu sem saber pronunciar.
É FAST FOOD DELIVERY SELF-SERVICE HOT DOG CATCHUP
meu Deus onde é que eu vim parar.

(“Estrangeirismo”, Zé Ramalho)


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