Escalas e a sincronia entre as mãos

Um dos principais problemas mecânicos a se superar no violão ou guitarra é a sincronia entre as mãos.
Enquanto no piano uma nota pode ser executada com apenas um dedo, nos instrumentos de corda pinçada praticamente todas as notas necessitam o esforço conjunto de ambas as mãos (excetuando-se as cordas soltas).

Por isso, para se adquirir uma técnica limpa e precisa, é necessário que este fundamento (sincronia) esteja absolutamente controlado e dominado. Muitas das vezes em que ouvimos alguém tocar com velocidade, porém sem muita clareza nas notas (o que chamamos por vezes de som sujo), temos um problema de sincronia entre as mãos. Esse problema mecânico acaba, por sua vez, prejudicando o discurso musical de quem toca.

Como solucionar esse problema? A bem da verdade, quase tudo que é tocado ao violão e guitarra deve ser estudado com atenção voltada ao tema da sincronia, mas hoje vou falar especificamente sobre as escalas ao violão. Geralmente é quando executamos escalas que os problemas de sincronia ficam mais claros de se ouvir e, também, mais difíceis de se contornar.
Lembro-me que só me dei conta disto quando, alguns anos atrás, pedi para minha professora Ângela Muner me passar exercícios de escala. Ela disse de cara: “Escalas necessitam sincronia perfeita. Vamos trabalhar isso antes.”

Como todo estudo de técnica, os exercício que vou recomendar necessitam de:

– atenção (não adianta praticar vendo TV)
– constância (não adianta praticar uma vez por semana, nem esperar resultados em 2 dias)
– supervisão (de um professor de qualidade, sempre que possível!)
– precisão (não se satisfaça com nada abaixo do perfeito)

Sobre esse último aspecto, perfeição, esclareço que ela vale para o aspecto rítmico (sempre use metrônomo!), para a sonoridade ao tocar, equilíbrio de volume e timbre entre as notas.

Vou sugerir dois exercícios que me ajudaram (e ainda ajudam) a trabalhar a questão da sincronia. O primeiro eu desenvolvi por conta própria, na época em que estudava com a Ângela Muner. O segundo me foi passado pelo violonista Fábio Zanon (com quem estudei entre 2009 e 2011) que, dentre outras atividades, é professor visitante da Royal Academy of Music de Londres.

Exercício 1)

Neste exercício, vamos trabalhar alternando entre cordas soltas e presas. Esse é um dos movimentos mais difíceis de se executar com limpeza. A distância “corda/braço do violão” é muito diferente entre a corda solta e ela presa, por isso devemos praticar esse gesto com atenção.  Se a sincronia não for perfeita, o ruído irá aparecer. É preciso cuidado na hora de pousar o dedo na corda, além de realizar esse movimento no momento exato ao do ataque da mão direita.

O exercício é simples. Trabalharemos com pares de notas, uma corda solta e uma presa. A mão direita irá alternar entre os pares de dedos i-m, i-a e m-a.
Começamos na 1a corda, usando o dedo 1 na casa 1. Subimos de corda em corda até a 6a, sempre usando o dedo 1 na casa 1, e depois descemos até a corda 1 novamente.
Ao retornarmos, fazemos a mesma série, mas agora usando a corda solta e o dedo 2 na casa 2.
Fazamos isso sucessivamente, até o dedo 4 na casa 4.

Deve-se iniciar com o metrônomo por volta de 100 bpm, uma nota por batida, e ir aumentando a velocidade lentamente, talvez de 10 em 10 bpm.
Após realizar na primeira posição do violão, o estudante pode realizar a série em outras casas do braço, o que aumenta a dificuldade, já que a corda fica ainda mais distante do braço, e a relação do conjunto do braço esquerdo muda conforme subimos pela escala do violão.

Outra dica bacana que o Fábio me passou: na mão direita, com os pares i-m//i-a//m-a deve-se alternar qual o dedo começa a série, mudando entre um dia e outro do estudo. Assim, a série não fica muito longa num dia só, e você pratica as duas possibilidades sempre na mesma quantidade.

Também deve ser realizado usando o toque com apoio, o que dificulta ainda mais.
O polegar direito pode ser apoiado sobre a corda imadiatamente superior a qual se está tocando. (Se estiver tocando na 1a corda, apoie o polegar na 2a)
Pratique com o polegar livre e com o polegar repousado na corda, e tente conseguir a sonoridade mais parecida possível entre os dois jeitos.

Exercício 2)

Este segue o mesmo raciocínio do anterior, mas agora ao invés de a mão esquerda alternar entre cordas soltas e presas, realizamos o exercício apenas com cordas presas.
Começamos com o dedo 1 na casa 1.
A primeira série será realizada com os dedos 1 e 2 (casas 1 e 2, respectivamente). Depois, realizamos os pares 1-3, 1-4, 2-4, 3-4.

Repare que, ao se iniciar a série com o dedo 1 na casa 1, a mão esquerda se manterá na mesma posição para todos os pares de dedos.
É recomendável que este também seja praticado em várias regiões do braço do violão.
A mão direita segue as mesmas regras do exercício anterior.

Espero que estes dois exercícios simples ajudem os que encontram problemas com escalas. Eles não invalidam o estudo de escalas propriamente ditas, mas são ótimos exercícios preliminares, pois colocam as mãos “na forma”. Se você encontrar dificuldade para realizar estes exercícios com uma sincronia perfeita entre as mãos, a chance de você estar tocando escalas sujas é enorme, já que numa situação normal de escala você também encontra saltos de mão esquerda, inversão de dedos na mão direita, etc. A ideia agora é isolar o aspecto sincronia e domina-lo!

Grave você tocando e escute com o maior senso crítico do mundo, isso é bastante revelador.


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