4 bandolinistas atuais que você precisa conhecer

Por mais presunçoso que pareça afirmar isto num post sobre grandes bandolinistas, afirmá-lo-ei (pegue essa, Temer!): sou “tocador de bandolim” nas horas vagas, com muito orgulho – isso explica a presença deste texto no site de um violonista. O fato é que através do bandolim conheci a obra de artistas incríveis, que transcendem o idiomatismo do instrumento e têm a capacidade de cativar qualquer apreciador de boa música. É essa a ideia deste texto: mostrar a quem não costuma ouvir bandolinistas que este instrumento é incrivelmente versátil, ao contrário do que diz o senso comum.

Escolhi para a lista meus 4 “jovens bandolinistas favoritos” – “jovens” por serem a nova geração do instrumento (todos com menos de 40 anos no momento em que escrevo, fev/2016) – artistas que, acredito, irão agradar aos apreciadores de boa música – o foco aqui é quem conhece pouco do instrumento. Apesar da juventude, são músicos completos e com carreiras consolidadas ou em plena ascensão.

O fato de a lista ter apenas brasileiros e norte-americanos é só reflexo do meu gosto e não resulta de algum critério racional ou pseudo-científico para a escolha. Sim, Brasil e EUA são dois dos países em que o bandolim mais se enraizou na música popular, mas é importante ressaltar que se trata de um instrumento de origem europeia, com forte tradição em países como Itália (de onde é originário), França e Portugal. Nos EUA, ele integra a tradição do bluegrass, enquanto no Brasil é presença marcante no choro. Vale a pena ler a página sobre o instrumento na Wikipedia em inglês para maiores informações.

Última observação: não sou adepto de listas como “os melhores do mundo”. O critério usado aqui é o mesmo que você utilizaria para emprestar um disco a um amigo – quero apenas que mais pessoas tenham acesso à música dos artistas abaixo. Se você quiser sugerir nomes que não estão ali, fique à vontade! Serei grato pelas adições.

Hamilton de Holanda

HH

Para mim, o principal músico popular brasileiro da atualidade (certamente um dos maiores de nossa história) e o grande responsável por eu ter decidido aprender bandolim. Hamilton expandiu os limites técnicos do “bandolim brasileiro”. Aqui, tradicionalmente o instrumento é usado melodicamente, com raros momentos em que faz acompanhamentos harmônicos (acordes). O músico carioca (crescido em Brasília), contudo, explora até o limite a capacidade de se fazer melodia E acompanhamento harmônico simultaneamente, o que eleva em muito a dificuldade de execução, permitindo até mesmo arranjos “solo” de bandolim – com contracantos, frases no baixo, acompanhamentos rítmicos -, algo raríssimo de se ver. Para acomodar o tanto de música que brota de sua cabeça, Hamilton adotou como instrumento básico o bandolim de 10 cordas (o tradicional tem apenas 8). Abaixo um exemplo impressionante dessa forma de execução (e um dos meus vídeos favoritos no YouTube):

Mas não é só! Hamilton é um grande compositor, tendo transcendido há muito tempo a escola do choro tradicional – tem influências mil, como samba e outros ritmos brasileiros, jazz e rock’n’roll. A música abaixo é exemplo claro de como é difícil rotular sua criação. Segundo meu irmão, a bateria aqui é tocada pelo sujeito do Slipknot.

Um lamento do autor do post: nunca consegui ir a um show do gênio! 🙁 (Meta para 2016.)
UPDATE: sonho realizado! Assisti ao Hamilton em abril de 2016 e foi uma experiência inesquecível.

Para ouvir na íntegra, o álbum “Íntimo”, de 2006, apenas para bandolim solo. Um dos grandes discos da música brasileira instrumental.

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Chris Thile

chris_thile

O norte-americano Chris Thile tem um perfil parecido com o de Hamilton de Holanda: criado na escola da música tradicional de seus país, no caso dele o bluegrass, Chris transcendeu essa linguagem e transita sem dificuldades por diversos gêneros musicais – gravou de J. S. Bach a música pop -, tendo tocado em muitos grupos, como no projeto ao lado da lenda do violoncelo Yo Yo Ma. Sua técnica é tão impressionante quanto a do brasileiro, ainda que ele não tenha se aprofundado nos aspectos harmônicos e polifônicos do bandolim – certamente não por falta de capacidade mecânica. Por fim, ele tem cara de vocalista de banda rock britânico.

Nickel Creek, “Destination” – banda da qual Chris fez parte, como bandolinista e cantor. Apesar de a formação instrumental remeter aos grupos tradicionais de bluegrass, o som é versátil e, mais importante, bom demais!

Abaixo, Chris toca o prelúdio do BWV 1006 de J. S. Bach, original para violino. Para quem não sabe, a afinação do bandolim é igual à do violino: trocando em miúdos, as notas estão no mesmo lugar do braço do instrumento. Contudo, por terem técnicas completamente diferentes (arco vs palheta), as dificuldades e possibilidades mudam (e em geral aumentam) ao se transcrever uma obra dessas para o bandolim. Resumindo: o homem é um monstro!

Outro projeto de Chris, o Punch Brothers. Novamente, instrumentos típicos do bluegrass, mas um som que vai muito além disso. E um bandolim tocado com maestria!

E, para encerrar, Chris e Michael Daves tocando e cantanado (muito bem, aliás) “My little girl in Tennessee”, de Lester Flatt. Tradição pura!

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Danilo Brito

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O brasileiro Danilo Brito se diferencia dos dois nomes anteriores na lista por ser defensor da tradição, no caso a do choro. É raro encontrá-lo envolvido em projetos que fujam dessa linguagem – enquanto Chris Thile parece saído de um ensaio do Franz Ferdinand, Danilo quase sempre se apresenta de terno e gravata. É compositor de mão cheia e tem uma técnica que beira o inacreditável, como atesta o vídeo abaixo, em que ele toca “Pega Ratão”, de sua autoria.

Mas choro não é só correria, e o fraseado de Danilo em obras mais contidas é cheio de sensibilidade. Abaixo, “Carnaval Duvidoso”, de Adalberto Azevedo (Betinho do Bonde).

Danilo ganhou notoriedade após vencer o prêmio Visa de música em 2004. Toca desde criança e frequentou ainda garoto rodas de choro em que tocavam Dino 7 cordas, Antônio Rago e outras lendas. Não havia como a mistura dar errado! Para encerrar, abaixo Danilo toca “Expansiva”, do grande Ernesto Nazareth, mostrando que a bandeira da música tradicional brasileira está em ótimas mãos!

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Sierra Hull

sierra_hull

Outra virtuose que você precisa conhecer, a norte-americana Sierra Hull é mais um prodígio do bluegrass que acabou ampliando e diversificando a própria música com o passar dos anos. Ela acabou de lançar um álbum em que canta e toca bandolins de diversas tessituras, em composições próprias que vão bem além do tradicional – aliás, são raros os momentos do disco em que suas raízes musicais aparecem com clareza.

Aqui dá pra ver como ela começou cedo!

Mas o mais bacana, em minha opinião, é o recente trabalho autoral de Sierra. Aqui, “Black River”, que aparenta ser a “música de trabalho” desse último disco lançado. O vídeo é esquisito, tem um ar meio Avril Lavigne, mas a música é boa, tem um arranjo bacana e a voz dela é linda!

Aqui, um vídeo recente no qual ela demonstra a técnica absurda ao tocar o bluegrass tradicional.

Outra canção do disco novo. As influências do tradicional estão lá, mas como compositora e instrumentista ela já está além do bluegrass. Sierra cursou recentemente a Berklee, talvez a principal escola de música popular nos EUA. Os ares de lá aparentemente fizeram bem à criatividade dela! Aguardemos ansiosamente os trabalhos futuros – Sierra tem apenas 24 anos!!!

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Instrumento versátil

Isso é apenas um pedaço do que vem sendo com o bandolim atualmente. Há inúmeros outros artistas incríveis em atividade pelo mundo, como os de gerações passadas (Mike Marshall, Armandinho Macedo, o genial Isaías), e outros jovens que têm tudo para marcar seu nome no instrumento (no Brasil, o trabalho do Fábio Peron é um que você precisa conhecer). O bandolim oferece muitas possibilidades, desde os gêneros tradicionais, como bluegrass e choro, até música pop e rock’n’roll. É um instrumento apaixonante e com um mundo de música boa para você conhecer. A busca compensa!

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Comments

4 bandolinistas atuais que você precisa conhecer — 10 Comments

  1. Adorei as indicações, não conhecia os estado-unidenses, muito obrigado!
    Já que você falou em sugestões, acho que nessa lista mereceria estar o incrível Avi Avital.
    Recomendo o ábum Between Worlds, e o vídeo do youtube em que ele toca no 8º mandolin osaka International festival.

  2. Que legal que você toca bandolim. Tenho vontade de aprender também. Você tem alguma dica para quem vem do violão e quer se arriscar no bandolim? A mudança de afinação deve dar um nó no cérebro, não ? Tenho um amigo que usa a afinação padrão de violão no bandolim, mas sei lá… acho que eu preferiria manter o “idiomatismo” do instrumento.

  3. Muito boa a postagem, André! Também aprecio muito o bandolim, suas possibilidades e combinações com outros instrumentos. Muito top todos esses artistas que você citou. Vim conhecer melhor o bandolim quando, por acaso, descobri o Chris Thile e os Punch Brothers através da NPR Radio. Virei fã e fui conhecer os outros projetos dele, tal como o Nickel Creek, e suas parcerias com outros músicos fascinantes como o Yo-Yo Ma, Edgar Meyer entre muitos outros. Como curiosidade, dentre essas parecerias descobri um bandolinista americano que é fanático por nossa música brasileira, o Mike Marshall. Ele já tocou, também, com o Hamilton e com o Danilo. Seguem alguns links dessas parcerias:

    Blackberry Blossom/Apanhei-te Cavaquinho – Mike Marshall & Hamilton de Holanda
    https://www.youtube.com/watch?v=3dVH2tGi2lI

    Desvairada – Danilo Brito e Mike Marshall
    https://www.youtube.com/watch?v=PBDUZZ7dMRM

    Desvairada – Mike Marshall & Chris Thile
    https://www.youtube.com/watch?v=SGys4oY-1G4

    Grande abraço

    • Wilder, obrigado pelas mensagens e pelas sugestões!

      Eu passei por uns vídeos do Mike Marshall por acaso no Youtube também uma vez, e fiquei de cara. Ele até tinha aparecido no rascunho do artigo, mas, no fim, acabei optando por uma breve citação ali. Fica o registro, contudo: o cara é mesmo MUITO bom!!! Sensacionais esses vídeos que você postou.

      Sobre dicas de violonista para quem toca bandolim, tenho duas:
      – não mude a afinação, pois você irá perder muito do idiomatismo das frases, como você mesmo disse.
      – pense nas cordas do bandolim como se fossem as 4 cordas de cima do violão, só que ponta cabeça! Essa dica quem me deu foi um ex-professor de violino aqui de Vinhedo, Der Garbuio. Ele toca violão, guitarra, bandolim e violino, além de construir todos esses instrumentos. (sim, o cara é maluco!) Essa dica ajuda a montar os primeiros acordes no bandolim e a se encontrar um pouco na nova afinação. Pense no acorde mais básico de Sol Maior ao violão por exemplo. Agora pense só nas 4 últimas cordas desse acorde. Agora inverta-as Pronto! Você já tem o desenho de Sol Maior no bandolim.
      Mas isso é um atalho/gambiarra. Para de fato se adaptar ao novo instrumento e à nova afinação, nada melhor que tocar escalas em vários tons, arpejos variados e ler muita partitura nova. Em poucos meses você estará fluente!
      Eu tive sorte de, antes de ir para o bandolim, ter estudado um ano de violino, então a transição acabou sendo mais suave.

      É isso! Obrigado pela visita e siga escrevendo.

      Abração

  4. Olá . André ! Gostei do seu texto. Vou deixar uma dica escute os bandolinistas israelenses , como o Avi Avital, Yaki Ruevien as Russas, como Olga Egorova, a Grega Sanius Verantius. Teve o Indiano que não entra na lista pois morreu ano passado com cinquenta anos mas vale a pena ouvir Srinivas. Um grande abraço do seu colega de cordas. Luis Militão

    • Luis, obrigado pela visita e pelas sugestões. Nunca sequer ouvi falar de nenhum deles! Só por essas descobertas já valeu a pena escrever o texto.

      Abração

  5. Pingback: O blog mudou de endereço! – Discordas

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